sábado, 26 de fevereiro de 2011

Com licença poética - Adélia Prado1976

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

COM LICENÇA POÉTICA – POR PAULO GONÇALVES

Data Vênia pede Adélia Prado à Drummond para falar da mulher a partir da intertextualidade com o Poema de Sete Faces. Isso é logo percebido nos primeiros versos, a saber: “Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombetas, anunciou: vai carregar bandeira.” Nessa passagem, o diálogo com a obra drummoniana está estabelecido. Contudo, percebe-se que essa bandeira não será torta, ou melhor, um fardo para essa mulher que Adélia tentou nos mostrar. Isso porque ela, nesse poema, falará da mulher da década de 1970, ou seja, as herdeiras da liberação sexual, das cobaias dos anticoncepcionais, da era paz e amor, a exemplo do nosso símbolo da época Rita Lee, deixando totalmente para trás a “mulher Amélia”, de Ataulfo Alves. Contudo, a mulher apresentada da época ainda se vê arraigada a preconceitos, mas afirma aceitar os subterfúgios da sociedade, sendo verdadeira, porém propensa a parto para um lugar melhor e também para partos de gerações de novas linhagens dessa mulher forte, mesmo sem pedigree, entendam essa palavra como sem permissão de todos, a exemplo de Marina Silva e Dilma Rousself. Contudo essa mulher terá a certeza de encontrar na família um alicerce para os entraves da vida. Enfim, Adélia ratifica a paródia da obra de Drummond nos versos: “Vai ser coxo é maldição para homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

Obrigado!

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