segunda-feira, 14 de março de 2011

QUEBRANDO A CABEÇA



Em um país cheio de convenções, preconceitos e burocracia como o Brasil, até a hora de comprar um presente pode ser polêmica. Acho que deixei vocês curiosos e instigados para saberem ao que ou a quem estou me referindo. Mas tenham um pouquinho de paciência que explicarei tudo acerca desse assunto.
Então lá vai. Quinta-feira, horário de almoço, fui ao Shop comprar um presente para uma criancinha de três anos. Já, apresento-lhes o primeiro problema, dar presente para uma menina. Sem machismo, para nós homens presentear um menino é bem mais fácil, é só relembrar do que gostávamos quando crianças e fazermos alguns ajustes em relação às décadas e a evolução delas. Vejamos então, como estava cheio de dúvidas em relação à adequação do presente a idade, chamei uma vendedora que me atendeu com muita paciência e competência. Perguntou-me a idade e o sexo da criança e eu respondi. A partir desse momento começaram as apresentações das lembranças. Primeiro elas sempre oferecem um presente bem caro para verem a nossa reação, se fugirmos rapidamente, elas mudam de estratégia e oferecem um mais barato. Foi o que aconteceu comigo.
Depois dessa reação, o primeiro presente foi um jogo de xícaras, achei interessante, mas na hora de comprar, vieram os questionamentos! Não poderia adquiri-lo, porque sempre nas minhas aulas sobre emancipação da mulher brasileira, falo que elas passaram por várias fases de subserviência ao homem. Faço uma retrospectiva histórica da mulher, lembro-me das sinhazinhas. Enfim enveredo pela mulher educada para se casar cedo e ser dona de casa. Sendo assim esse presente não serve, pois no século XXI não é mais a cozinha o lugar da mulher. Além do mais, a mulher não é só corpo, objeto.
O segundo presente foi um conjunto de maquiagem, achei ótimo, imaginei-a toda pintadinha com as diversas cores apresentadas no estojo. Mas também não comprei, fiquei com receio que ela ficasse vaidosa demais. Não poderia ir de encontro aos ensinamentos de minha família a qual sempre disse que criança deve ser tratada como criança, dessa forma não concebo uma pessoazinha de três anos toda pintada.Dar a maquiagem reforçaria a imagem da mulher só bonita.
O terceiro presente foi uma boneca, a “cinquentona” Barbie. Fiquei perdido com tantos modelos, com tantos acessórios e com tantas cores. Meus olhos se perderam na variedade de manequins e preços. Contudo não achava a tez de “pele” a qual procurava, porque tinham diversos modelos de Barbie branca e somente um modelo de Barbie negra e para piorar a situação o preço não condizia com o meu orçamento. Não pretendo com isso acirrar essa discussão sobre racismo, mas se pouco nos vemos nas telinhas, porque não cutucar um pouco essa sociedade ainda tão preconceituosa?
Como vocês perceberam, já deveria estar chateando a vendedora e, é claro, quebrando a minha cabeça para comprar uma lembrança de aniversário. Está aí a solução: quebra-cabeça, um presente na maioria das vezes barato e inteligente. Isso porque atende às necessidades do meu bolso e coloca a mulher no seu devido lugar: o lugar de um ser humano que pensa. No entanto, fiquemos atentos para que a criança não engula as pecinhas.

Autor: Paulo César da Silva Gonçalves

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Com licença poética - Adélia Prado1976

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

COM LICENÇA POÉTICA – POR PAULO GONÇALVES

Data Vênia pede Adélia Prado à Drummond para falar da mulher a partir da intertextualidade com o Poema de Sete Faces. Isso é logo percebido nos primeiros versos, a saber: “Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombetas, anunciou: vai carregar bandeira.” Nessa passagem, o diálogo com a obra drummoniana está estabelecido. Contudo, percebe-se que essa bandeira não será torta, ou melhor, um fardo para essa mulher que Adélia tentou nos mostrar. Isso porque ela, nesse poema, falará da mulher da década de 1970, ou seja, as herdeiras da liberação sexual, das cobaias dos anticoncepcionais, da era paz e amor, a exemplo do nosso símbolo da época Rita Lee, deixando totalmente para trás a “mulher Amélia”, de Ataulfo Alves. Contudo, a mulher apresentada da época ainda se vê arraigada a preconceitos, mas afirma aceitar os subterfúgios da sociedade, sendo verdadeira, porém propensa a parto para um lugar melhor e também para partos de gerações de novas linhagens dessa mulher forte, mesmo sem pedigree, entendam essa palavra como sem permissão de todos, a exemplo de Marina Silva e Dilma Rousself. Contudo essa mulher terá a certeza de encontrar na família um alicerce para os entraves da vida. Enfim, Adélia ratifica a paródia da obra de Drummond nos versos: “Vai ser coxo é maldição para homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

Obrigado!

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De Alguma poesia (1930)
Carlos Drummond de Andrade

Arriequei-me em fazer um comentário acerca desse poema de Drummond.Espero que tenha contribuido com essa magnífica obra.

POEMA DE SETE FACES – POR PAULO GONÇALVES

Nesse momento, nos travestimos de deuses para tentarmos dizer ou desdizer o que o autor quis expressar para seus leitores. Nessa perspectiva, salutar se faz contextualizar a época do poema, ou seja, 1930. Sem muitos devaneios, traremos dois eventos imprescindíveis como parâmetro para esse homem descrito no Poema de Sete Faces, de Drummond, são eles: a grande Depressão de 1930 nos Estados Unidos da América e o início da Era Vargas, também na mesma época. Em relação à década de 30, o homem mundial estava instável, isso se deve também em razão da 1ª Grande Guerra, mas a Depressão iniciada em 1929, com a queda da Bolsa de Nova Yorque nos deixou ainda mais instável. Paralelo a isso, o Brasil também passava por um momento difícil, pois o Golpe Militar de 1930 e a posse de Getúlio Vargas deixou a nação muito desconfiada. É nesse contexto que Drummond apresenta seu Gauche, ou melhor, o homem predestinado a ser torto na vida. Será que esse Carlos Gauche não seria reflexo dessas revoluções? Talvez sim! Talvez não! Cadê Drummond, onde estas que não responde. Brincadeiras a parte, o texto deixa marcas desse persona que é torto, mas pode ser simples e forte. Não seria uma ironia? Tudo indica que sim, porque ele se esconde atrás do bigode e dos óculos, que funcionam como uma armadura para as agruras da vida. Logo em seguida, nosso mineiro querido, nos afirma que mudar de nome não resolveria essas incertezas, pois apenas camuflaria uma problemática. Contudo, nos versos: “Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração” há uma esperança de mudança a partir da emoção, do coração, metáfora do amor, independente desse homem se apresentar embriagado pelas nuances da vida.