
Em um país cheio de convenções, preconceitos e burocracia como o Brasil, até a hora de comprar um presente pode ser polêmica. Acho que deixei vocês curiosos e instigados para saberem ao que ou a quem estou me referindo. Mas tenham um pouquinho de paciência que explicarei tudo acerca desse assunto.
Então lá vai. Quinta-feira, horário de almoço, fui ao Shop comprar um presente para uma criancinha de três anos. Já, apresento-lhes o primeiro problema, dar presente para uma menina. Sem machismo, para nós homens presentear um menino é bem mais fácil, é só relembrar do que gostávamos quando crianças e fazermos alguns ajustes em relação às décadas e a evolução delas. Vejamos então, como estava cheio de dúvidas em relação à adequação do presente a idade, chamei uma vendedora que me atendeu com muita paciência e competência. Perguntou-me a idade e o sexo da criança e eu respondi. A partir desse momento começaram as apresentações das lembranças. Primeiro elas sempre oferecem um presente bem caro para verem a nossa reação, se fugirmos rapidamente, elas mudam de estratégia e oferecem um mais barato. Foi o que aconteceu comigo.
Depois dessa reação, o primeiro presente foi um jogo de xícaras, achei interessante, mas na hora de comprar, vieram os questionamentos! Não poderia adquiri-lo, porque sempre nas minhas aulas sobre emancipação da mulher brasileira, falo que elas passaram por várias fases de subserviência ao homem. Faço uma retrospectiva histórica da mulher, lembro-me das sinhazinhas. Enfim enveredo pela mulher educada para se casar cedo e ser dona de casa. Sendo assim esse presente não serve, pois no século XXI não é mais a cozinha o lugar da mulher. Além do mais, a mulher não é só corpo, objeto.
O segundo presente foi um conjunto de maquiagem, achei ótimo, imaginei-a toda pintadinha com as diversas cores apresentadas no estojo. Mas também não comprei, fiquei com receio que ela ficasse vaidosa demais. Não poderia ir de encontro aos ensinamentos de minha família a qual sempre disse que criança deve ser tratada como criança, dessa forma não concebo uma pessoazinha de três anos toda pintada.Dar a maquiagem reforçaria a imagem da mulher só bonita.
O terceiro presente foi uma boneca, a “cinquentona” Barbie. Fiquei perdido com tantos modelos, com tantos acessórios e com tantas cores. Meus olhos se perderam na variedade de manequins e preços. Contudo não achava a tez de “pele” a qual procurava, porque tinham diversos modelos de Barbie branca e somente um modelo de Barbie negra e para piorar a situação o preço não condizia com o meu orçamento. Não pretendo com isso acirrar essa discussão sobre racismo, mas se pouco nos vemos nas telinhas, porque não cutucar um pouco essa sociedade ainda tão preconceituosa?
Como vocês perceberam, já deveria estar chateando a vendedora e, é claro, quebrando a minha cabeça para comprar uma lembrança de aniversário. Está aí a solução: quebra-cabeça, um presente na maioria das vezes barato e inteligente. Isso porque atende às necessidades do meu bolso e coloca a mulher no seu devido lugar: o lugar de um ser humano que pensa. No entanto, fiquemos atentos para que a criança não engula as pecinhas.
Autor: Paulo César da Silva Gonçalves